Conto: O Coelho Elegante

Tempo de leitura: 26 minutos

Escondido num canto escuro, entre vasos espalhafatosos cheios de flores de plástico de cor sem graça, havia um coelhinho de pano velho, mas muito bem cuidado. Todas as suas partes tinham sido feitas por um dos melhores costureiros, com olhos de botões azuis e brilhantes, focinho de linha laranja e um sorriso sorridente que exibia seus dentinhos feitos de retalhos. Usava um terninho de seda muito bem desenhado e tinha uns quarenta centímetros de altura. Era um brinquedo formidável.

Enquanto corria os olhos por uma das estantes da sua biblioteca particular, Lorena direcionou o olhar para o brinquedo pela primeira vez em anos. Obviamente, com o passar do tempo, ele ficou escondido entre as coisas mais inúteis que ela comprava para decorar o cômodo de sua mansão. Cuidadosamente, retirou um vaso caríssimo que ganhara em uma viagem a Londres e apanhou o coelhinho nas mãos, sentido sua maciez e se lembrando de como era prazeroso abraçá-lo quando era criança.

Lorena lembrava-se muito bem do dia em que ganhara o coelhinho. Seu pai era um grande amigo do próprio costureiro que o fez e a especialidade dele era fazer uma coleção desses coelhinhos, todos exatamente iguais. Seu pai a levara para conhecer a oficina do costureiro e o próprio o entregou em suas mãos.

Apesar de ser um brinquedo tão simples, Lorena adquirira uma afeição mais forte com aquele coelhinho. Todas as vezes que seus pais brigavam, lembrava-se de apertar o coelhinho num abraço e chorar sozinha em seu canto. E isso acontecia frequentemente.

A família de Lorena sempre tinha várias posses e sempre foi considerada uma das famílias mais ricas do País. No entanto, quando um grande dinheiro estava envolvido nos relacionamentos, as pessoas sempre queriam passar por cima das outras, não importando o laço familiar. Os pais de Lorena brigavam por vários motivos. A mãe queria usar o dinheiro para montar um próprio negócio, enquanto o pai queria usá-lo para fins misteriosos. Enquanto abraçava o coelhinho, de madrugada e sem conseguir dormir, Lorena ouvia os pais discutindo no quarto, falando sobre amantes, traições e que seu pai considerava a mãe uma sugadora de dinheiro.

Para manter as aparências na sociedade, os pais não se separaram. Era anos 60 ainda e naquela época muitos hostilizavam o divórcio e prezavam que um casamento deveria durar a vida inteira. Se fosse para durar a vida inteira, Lorena não imaginaria até que ponto os pais enganariam àqueles que estivessem fora de seu convívio. Infelizmente, o pior aconteceu. A mãe morrera num acidente depois de sair de casa transtornada com outra discussão, deixando pai e filho sozinhos, numa época silenciosa e fria.

Lorena levou o coelhinho no velório da mãe e chorou diversas vezes, molhando o brinquedo com suas lágrimas. No entanto, deixou-o de lado quando sua adolescência chegou mais cedo do que gostaria. O pai queria vê-la transformada numa mulher madura e capaz de controlar o negócio da família. Depois de muitos anos, Lorena descobriu que era capaz disso e não precisava mais abraçar um coelhinho de pano para se consolar em momentos difíceis.

Mas vê-lo novamente trouxe as lembranças novamente. Algo que ela decididamente não queria.

Portanto, chamou uma de suas empregadas para colocá-lo no lixo.

A empregada de meia-idade, cujo nome era Ana Lúcia, ficou admirada quando sua patroa pediu para tratar aquele brinquedo como se fosse uma porcaria qualquer. No entanto, já havia aprendido a não contrariar as ordens Lorena, por mais absurdas que fossem.

Ao sair da biblioteca com o coelhinho em mãos, reconheceu imediatamente um brinquedo que sempre sonhara em possuir quando era criança.

Ana Lúcia teve uma infância muito humilde. Era a sétima filha e caçula de um casal muito pobre da periferia da cidade. O pai trabalhava de mecânico em uma oficina que pagava pouco e a mãe era empregada doméstica numa pensão que também não tinha o melhor salário.

Por conta disso, a jovem Analu – como era chamada pelo pai –, permanecia mais tempo em casa com os irmãos. E apesar de terem pouco e passarem por muitas dificuldades, era uma família razoavelmente feliz.

Eles não tinham dinheiro para comprar as melhores roupas e muito menos para comprar brinquedos. Mas pelo menos não passavam fome e nem frio durante o inverno rigoroso. Ana Lúcia lembrava-se de passar os dias brincando com seus irmãos e irmãs mais velhos, que mesmo sem brinquedos, arranjavam formas de se divertir no quintal, seja brincando com areia ou subindo em árvores.

Vez ou outra, durante os feriados de Páscoa e Natal, os pais de Analu economizavam um tantinho de dinheiro para levar os filhos para passear na cidade, seja para comerem um hambúrguer ou tomar um sorvete. Eram nesses dias que Ana andava sonhadora pelas vitrines das lojas, observando detalhadamente seus produtos e imaginando como seria se ela tivesse dinheiro suficiente para comprar todos.

Queria ter um vestido bonito para usar na escola e um caderno colorido com desenhos de animais bonitinhos; queria ter um estoque de lápis e canetas brilhantes novinhas em folha, para desenhar até não poder mais; queria ter dezenas de caixas de bombons com sabores variados e deliciosos. Mas acima de tudo, queria ter aquele precioso brinquedo que sempre aparecia em seus sonhos.

Não era a casinha de plástico desejada por todas as suas irmãs ou a boneca realista cujo rosto era até assustador para muitas pessoas. Era um coelhinho de pano, cuja loja mais próxima dizia que se chamava Senhor Elegante. Era o mesmo coelhinho que agora, a Ana Lúcia mais velha, segurava nas mãos com tanto carinho.

Ela não tinha ideia de quantas vezes passou tempo admirando o brinquedo na vitrine quando era criança. Ao mesmo tempo, olhava assombrada para o preço da etiqueta, um valor muito alto para um brinquedo tão simples. Tão alto que daria para a família de Analu tomar sorvete durante todos os dias de uma semana inteira.

Sua mãe sabia que ela queria aquele brinquedo e prometeu que quando as coisas melhorassem, compraria para a menina com o maior orgulho. Porém Analu, apesar de ficar feliz com essa informação, sabia no fundo que a mãe jamais conseguiria comprar por conta dos problemas que estavam enfrentando. Sempre havia alguma coisa para gastar dinheiro. Goteiras na casa, pragas domésticas que deveriam ser exterminadas, um dos irmãos que quebrara o braço e dívidas e mais dívidas por conta da redução do salário do pai, até chegar em sua demissão e falecimento em seguida.

Na última vez que visitou aquela loja de brinquedos, Analu ficou surpresa por não encontrar o coelhinho mais à venda e mais surpresa ainda por não se importar mais com isso. Já tinha seus quinze anos e sua infância se fora, trazendo lembranças mais boas do que ruins. Afinal, enfrentar as goteiras tinha sido engraçado. E a vez que os ratos invadiram seu quarto a fazia rir por se lembrar do pai caindo ao se assustar com um deles tentando entrar no seu sapato preferido. Ver o Senhor Elegante depois de tantos anos trouxe boas lembranças sobre um passado feliz, não muito diferente do presente.

Ana Lúcia se sentiu uma criança novamente ao pegar o coelhinho. Finalmente tinha conseguido sentir seu peso e textura macia, bem como ela tinha imaginado durante tanto tempo. Se imaginou brincando com ele, talvez pegando xícaras, pires e um bule de chá para inventar uma reunião com um coelhinho importante. Sem perceber, Ana Lúcia sorria no corredor da sua patroa.

Isso despertou a curiosidade de Terêncio, o mordomo. A viu conversando com o coelhinho e com um comentário sobre sanidade, fez Ana Lúcia voltar à realidade. Precisava jogar Senhor Elegante fora. Faria isso mesmo ou guardaria para si? Afinal, de qualquer forma, Lorena não sentiria falta mais do brinquedo e Ana Lúcia não teria coragem de colocar no lixo o Senhor Elegante, o sonho de consumo de muitos anos.

– É só um brinquedo – disse Terêncio, quando Ana Lúcia explicou o que estava fazendo. – Um brinquedo velho.

– Pra mim não é – retrucou a empregada. – Vai dizer que você nunca gostou de brinquedos quando era criança?

– Nunca – disse o mordomo, friamente.

Mas era mentira, obviamente. Terêncio gostava e muito de seus brinquedos. Seus preferidos eram os soldadinhos de plástico, dos quais ele passava horas e horas brincando de guerras e escolhendo um dos bonequinhos para representar seu pai, que era um soldado de verdade. O pai de Terêncio era inglês e tinha sido convocado para a Segunda Guerra Mundial. Tinha orgulho de fazer o pai derrotar Adolf Hitler com um tiro de canhão.

Na vida real, os nazistas realmente foram derrotados, mas Terêncio jamais soube do paradeiro do seu pai. Era provável que morrera numa batalha e como o corpo estava irreconhecível, fora enterrado em um túmulo em homenagem aos soldados desconhecidos. Como a família se mudou para o Brasil com o início da guerra, preferiram permanecer no país durante o resto de suas vidas. Desde o dia em que descobrira que a guerra terminara e o pai não ia voltar, Terêncio abandonou seus brinquedos para sempre.

– Não podemos ficar presos ao passado – disse o mordomo. – É só um brinquedo e apesar de trazer saudades, um dia você ficará triste demais e se arrependerá das suas decisões. O melhor o que tem a fazer é seguir as ordens de Lorena. Jogue-o no lixo.

Como ele fez com seus soldadinhos.

– Eu faço isso por você – disse Terêncio, reconhecendo o olhar de fraqueza de Ana Lúcia e estendendo a mão.

Ana Lúcia secou uma lágrima que surgiu em seu olho direito e entregou o brinquedo, soltando o ar com força.

– Você tem razão.

O único gesto gentil de Terêncio foi depositar o brinquedo em um saco plástico antes de jogá-lo na lixeira da cozinha, misturando com restos de comida e pedaços de embalagens. E assim o Senhor Elegante permaneceu durante dois dias seguidos até ser levado pela mesma Ana Lúcia – que já até havia esquecido do coelhinho – até a lixeira da rua no dia da coleta de lixo.

Do outro lado da rua, um catador de lixo notou que era a única lixeira cheia naquela hora e correu para buscar qualquer coisa útil antes que os lixeiros chegassem para sua tristeza. Revirando as sacolas, encontrou vários alimentos em bom estado – um dos benefícios de procurar comida no lixo de um bairro nobre da cidade – e tateou a procura de algo para se cobrir no inverno. Ao invés disso, encontrou a sacola com um coelhinho de brinquedo.

O pobre Francisco nunca teve um brinquedo na vida, pois desde pequeno já não tinha um lugar para morar. A mãe uma vez disse que possuía uma casa e vários brinquedos até não seus pais não conseguirem pagar o aluguel e serem despejados. Já Francisco – ou Chico, como era conhecido pelos amigos do bar da esquina –, nunca conheceu o pai e não saberia dizer se brincara alguma vez.

Por essa razão, Chico considerou aquele coelhinho bonitinho uma coisa inútil e, sem olhar duas vezes, jogou-o no chão e levou a sacola limpa e intacta para levar as frutas intocadas e de boa aparência que encontrara.

O Coelho Elegante passou despercebido pelos lixeiros, cuja única tarefa era levar todas as sacolas visíveis enquanto escutavam uma música de cantores sertanejos em alto e bom som nos seus fones de ouvido baratos.

E assim foi durante cinco dias. Pessoas passavam por aquela calçada, não se importando que um brinquedo tão fofinho permanecia jogado como uma folha de árvore seca. Algumas crianças notaram, as mais novas quiseram tocá-lo, mas foram reprimidas pelos pais. Muitos alegaram que poderia ser um brinquedo amaldiçoado, mas de certa razão era mesmo. Afinal, porque ninguém quis ficar com um brinquedo tão inocente e bonito?

Entretanto, o destino do coelhinho estava prestes a ser alterado. Não era por causa da chuva que estava se formando no céu. Era porque um homem adulto, que caminhava a esmo por aquela calçada, por caso espirrou e consequentemente baixou a cabeça, notando o brinquedo e sorrindo logo em seguida.

Astolfo era um grande admirador de criadores de brinquedos feitos à mão e não pensou duas vezes antes de se abaixar e pegar o coelhinho elegante nas mãos. Estava levemente sujo e empoeirado, mas nada que uma boa limpeza não resolvesse para que o brinquedo pudesse ser vendido em sua loja. Com os olhos brilhando, Astolfo guardou o coelhinho com cuidado e correu para seu carro o mais rápido que suas pernas cumpridas conseguiam.

Astolfo se considerava uma criança crescida. Tivera uma infância demasiadamente feliz, sendo que suas duas tias ricaças adoravam mimá-lo depois que seus pais o abandonaram porque eram egoístas demais para largarem a vida de cientistas para cuidar de um filho. Porém, Astolfo nunca foi afetado pela consequência de ter os pais biológicos distantes.

Era muito amado por suas duas tias e elas viviam comprando brinquedos para agradá-lo. Astolfo gostava muito deles, desde os robôs que acendiam luzinhas até os carrinhos de controle remoto. Mas ele tinha uma preferência com os brinquedos de pano. Eram macios e tão confortáveis de segurar que ele podia passar horas e horas jogando-os no ar e fazendo acrobacias. Eles caíam no chão com tanta delicadeza e nunca rasgavam e se quebravam.

Assim sendo, Astolfo era diferente dos seus amigos que desprezavam brinquedos de pano. O tempo passou, o menino cresceu, mas jamais deixou de brincar e gostar de seus brinquedos, especialmente os de pano. Por esse motivo, decidiu trabalhar com brinquedos pelo resto da vida e montar uma loja para entregar os brinquedos a outras crianças com um bom preço para os pais levarem aos seus filhos. Nada era tão bom quanto um sorriso de uma criança levando seu brinquedo novo. Brincar era parte da infância.

Os tempos modernos chegaram e com ele, veio a tecnologia. A maioria das crianças prefere ficar com seus celulares, computadores, tablets e videogames, mas Astolfo acreditava que os brinquedos comuns e simples ainda era uma parte essencial na infância de cada pessoa. Apesar da sua loja de brinquedos não fazer tanto sucesso quanto antigamente, nunca pensou em desistir. Para ele, mesmo que uma única criança aparecesse na sua loja, deveria estar lá para recebê-la e ver seu sorriso.

Astolfo entendia muito bem que as crianças se sentiam muito bem atraídas pela tecnologia desde cedo. Contudo, as melhores lembranças da infância sempre estavam relacionadas com as brincadeiras e aquele seu brinquedo favorito que o acompanhava em momentos felizes e tristes. Era seu parceiro de aventuras, seu protetor noturno, seu escudo. E quando uma criança entrava à procura deste amigo, era o momento em que Astolfo estufava o peito e fazia o seu melhor para ajudá-la a escolher.

Nem todos os brinquedos da loja eram novos com suas embalagens de papelão perfeitas. Muitos produtos, como o coelhinho que Astolfo encontrara na rua, permaneciam num porão ou numa garagem suja antes de receberem um trato. Cuidadosamente, Astolfo passou boa parte da noite ajeitando o coelhinho e notando que sua costura era perfeita e seu terninho era da seda mais pura. Era um brinquedo tão bonito que merecia ficar na vitrine e foi o que ele fez, retirando a boneca mais moderna que possuía na loja.

A estratégia deu certo. Demorou um tempinho, mas certo dia, uma mulher bonita que não parecia ter mais de vinte e cinco anos, ficou paralisada ao olhar para a vitrine e notar o coelhinho com interesse. Astolfo olhou para a mulher com curiosidade, notando que seu olhar era de uma criança que vira o brinquedo mais bonito do mundo.

Quando achou que ela entraria na loja, Astolfo se surpreendeu quando a mulher piscou três vezes rapidamente, como se tivesse tentando acordar de um devaneio e rumou para longe do seu campo de visão.

Alguns dias se passaram e muitos brinquedos da loja tinham sido comprados, mas o coelhinho continuava lá na vitrine, sem receber devida atenção. Mas três dias depois de ver o coelhinho pela primeira vez, a mesma mulher ficou paralisada e admirando-o novamente. Perto da vitrine, Astolfo sorria para a mulher, sem atrair seu olhar. A mulher ficava tão bonita olhando para o coelhinho daquele jeito; uma menina crescida.

A partir daquele dia, Astolfo via a mulher admirar a boneca no mesmo horário todos os dias durante duas semanas inteiras. Ele sempre esperava para ver ela no dia seguinte e ele nunca se decepcionava. Sempre estava ali, sorrindo durante poucos minutos.

A curiosidade de Astolfo começou a aumentar. Por que ela fazia isso? O que ela estava pensando? E… acima de tudo… Por que o coelhinho era tão especial para ela?

Então, algo inesperado aconteceu. Um homem bem arrumado entrou na loja sozinho, pouco tempo antes do horário em que a moça costumava olhar a vitrine e comprou o coelhinho de pano.

Um tanto desconcertado, Astolfo embalou o brinquedo como um presente e entregou para o homem, desconfiando que algo mudaria depois disso.

E mudou.

A misteriosa mulher apareceu na vitrine logo depois disso, esperando encontrar o brinquedo para admirá-lo. Quando não o encontrou, lançou um olhar de incerteza para a loja e ficou coçando a cabeça antes de ir embora, com ar triste.

Astolfo, que contemplou a cena, ficou um tantinho incomodado por vê-la assim. Mais um dia se passou ela retornara à vitrine. No entanto, estava acompanhada de uma menina muito parecida com ela e não se demorou muito ao ver que o coelhinho não estava lá também.

Finalmente, no terceiro dia, a mulher entrou pela primeira vez na loja.

– Posso ajudá-la, minha querida? – perguntou Astolfo prontamente.

Ela lançou um olhar automático e rápido para a vitrine depois de correr os olhos por toda a loja.

– Será que você pode me informar onde…

–… Foi parar o coelhinho da vitrine? – completou Astolfo.

Ela ergueu as sobrancelhas, confirmando que era exatamente o que iria perguntar.

– Como…?

– Eu a vi várias vezes olhando para a vitrine – disse Astolfo, em tom de desculpas. – Infelizmente eu o vendi para um senhor na terça-feira. Era o único que eu tinha. Sinto muito.

– Ah – exclamou ela, num tom muito desapontado. Mas em seguida, sorriu timidamente. – Não tem importância – mas seu tom de voz dizia que tinha muito importância. – Obrigada mesmo assim.

– Não tem? – perguntou Astolfo, quando a moça virou-lhe as costas. – Parecia que você adorava ver aquele brinquedo.

A moça hesitou. Respirou fundo e soltou o ar, virando-se para Astolfo.

– Meu pai foi o costureiro que o criou – disse ela, confiante. – Sei disso porque ele era o único que fazia esse tipo de coelhinho. Todos eram iguais e todos foram vendidos há muito tempo – ela sorriu tristemente. – Eu o reconheceria de longe. Todas as vezes que eu passava por esta vitrine, pensava se compraria ou não. Quando decidi comprá-lo, já não estava mais aqui. Suponho que o destino não quer que eu o tenha.

– É um brinquedo muito bem costurado. É perfeito. Seu pai é muito talentoso.

– Ele era – disse a moça, mais para si mesma. – Só era talentoso no que fazia.

Ela abaixou a cabeça, como se a lembrança a magoasse profundamente. Com o rosto corado, disse algo que lembrou um “Adeus” e passou pela soleira da porta.

O nome da mulher era Tereza. Crescera e foi educada pelo pai, já que a mãe tinha morrido no parto do segundo filho, no ano seguinte do nascimento da primogênita. Porém o filho nasceu natimorto, para aumentar ainda mais a tristeza da família. O luto fez o pai começar a trabalhar arduamente como costureiro e sem conseguir trabalho para consertar roupas, certa vez teve a ideia de criar um brinquedo de pano idêntico ao que ele fez para o filho que jamais viveria no mundo dos vivos.

Ele começou uma coleção e Tereza passou sua infância inteira vendo o pai trabalhar e vender o brinquedo que o mesmo nomeou como “Coelhinho Elegante”. Como forma de compensar sua dor e dar valor ao seu trabalho, o costureiro cobrava caro por cada brinquedo e isso garantiu que ganhasse muito dinheiro de pais milionários que compravam aqueles preciosos coelhinhos para seus filhos mimados.

Para a infelicidade de Tereza, seu pai nunca a deixara nem ao menos tocar em nenhum dos brinquedos, porque em suas palavras, dizia que nenhum membro da família deveria possuir aquele brinquedo, em memória ao filho morto.

Tereza não achava justo. Queria ter um, ao menos para guardar de lembrança. Eram tão bem feitos e tão bonitos… Não fazia sentido não ter apenas um. Mas não adiantava discutir com seu pai e não importava quantos planos infantis ela fizesse para possuí-los. Depois que o pai morreu – vendendo no mínimo uns dois mil coelhinhos para crianças de diferentes lugares –, Tereza jamais encontrara um deles. Até aquele dia.

Mas o homem que o comprou fez o papel do seu pai. Infelizmente ela não estava destinada a ter um coelhinho e isso apenas a fazia lembrar de que sua infância poderia ter sido bem melhor se seu pai fosse caloroso o suficiente para presenteá-lo com um deles.

Porém, o destino mais uma vez estava prestes a ser alterado.

Numa manhã chuvosa, o homem que comprara o coelhinho voltara à loja de Astolfo com o brinquedo e o embrulho rasgado de qualquer jeito.

– Minha filha de três anos odiou o presente – informou ele, muito incomodado. – Ela quer um tablet, então vou comprar um para ela. Senhor, só quero o meu dinheiro de volta, por favor.

Astolfo sorriu por dentro, mesmo que a placa ao lado do balcão dizia claramente que não aceitava devoluções. Para aquele homem, ele poderia fazer uma exceção com muito gosto.

– Essas crianças de hoje em dia – comentou o homem ansioso, enquanto Astolfo procurava o dinheiro – não querem mais saber de brinquedos comuns.

– Nem todas – Astolfo sorriu ao entregar o dinheiro e apanhar o coelhinho.

Mas ao invés de colocá-lo na vitrine, Astolfo guardou o brinquedo para o momento certo. E assim, esperou.

Ele tinha esperanças que a moça que procurava pelo coelhinho passasse na sua vitrine. Demorou alguns meses para que isso acontecesse. Seis, no mínimo.

Quando a viu, estava embalando um presente e não se importou em quase derrubar a mulher arrogante que esperava pelo produto e saiu porta afora atrás da moça. Ela se virou quando viu quem estava correndo atrás dela, um tanto abismada.

– Moça… espere – disse Astolfo, quase sem fôlego. – O homem devolveu o coelhinho.

Atônita, Tereza olhou do coelhinho para o dono da loja. Por longos minutos, eles se encararam e Astolfo ignorou as reclamações da cliente lá dentro da loja, que o chamava com exasperação.

– Eu queria muito, mas… – Tereza gaguejou. – Mas não tenho dinheiro para comprá-lo agora e…

– Não precisa – disse Astolfo, com um sorriso gentil. – Eu o encontrei largado na rua. Não tive quase nenhum custo com ele. Seria uma honra entregar o coelhinho para você.

– Mas… eu não sei se posso…

– Aceite, por favor – disse Astolfo, firme.

Tereza hesitou por três segundos até segurar lentamente o coelhinho. Admirou por um momento e, com lágrimas nos olhos, abraçou o dono da loja de brinquedos.

– Você não sabe o que isso significa para mim – Tereza estava muito emocionada. – É a única lembrança que sobrou do meu pai. A única lembrança que tenho da minha infância. Mesmo que não tenha brincado com esse coelhinho e nenhum outro brinquedo.

– Essa é a magia deles – disse Astolfo, vendo-a sorrir como as crianças que visitavam sua loja. Seu trabalho de encontrar o amigo preferido estava concluído. Quem disse que os adultos não poderiam ter alma de criança?

Tereza o abraçou mais uma vez antes de ir direto para sua casa. E como gratidão, Astolfo a veria várias e várias vezes dentro da sua loja de brinquedos.

Aquele gesto significou muito para Tereza. Estava enfrentando um dia muito ruim. Uma crise no trabalho, o divórcio com seu marido e a filha Manoela estava com febre em sua casa e sem ninguém para cuidá-la.

Mas o Coelho Elegante lhe deu forças porque se lembrou do pai, que enfrentou uma grande crise emocional e permaneceu forte até o fim. Ela deveria fazer o mesmo. E foi o que fez.

Encontrou a filha Manoela deitada na cama, com o rostinho triste. Quando notou que a mãe chegara, abriu os olhos e sorriu levemente.

– Como está a minha princesinha? – perguntou Tereza, dando um beijo na filha. Finalmente a febre estava passando.

– Melhor agora – disse, enquanto Tereza sentava-se na cama. – Onde está o papai?

Tereza suspirou, acariciando os cabelos macios da filha.

– Papai vai ficar bastante tempo longe.

– Ele tá viajando?

Tereza riu com a pergunta inocente.

– Quase isso. Mas ele vai visitar você sempre. Ele te ama tanto quanto eu – acrescentou, dando mais um beijinho na testa dela. – Mas trouxe um presente pra você.

– Um remédio? – perguntou Manoela na mesma hora. – Eu não gosto.

A mãe riu mais uma vez.

– Não é um remédio – e fazendo um pequeno suspense, mostrou o brinquedo para a filha, que adorou imediatamente.

– Que lindo! – exclamou.

– Foi o vovô que fez, querida – disse Tereza, sorrindo. – Eu encontrei e agora é todo seu.

Obigada mamãe.

Tereza não teve a infância que queria, mas garantiu que sua filha tivesse. E ao vê-la com aquele coelhinho nos braços, soube que estava no caminho certo, apesar do relacionamento com o marido não foi conforme o planejado.

Por mais que se planejasse o futuro, muitas coisas não se concretizavam. O tempo era imprevisível e a única coisa que sobrava era as lembranças do passado. Felizes ou tristes. Faziam parte de cada pessoa.

Muitos de nós consideram a infância como uma das épocas mais felizes da nossa vida. Nosso dever é simplesmente crescer, aprender como viver neste mundo e, acima de tudo, se divertir e se sentir feliz. Porque a felicidade é fundamental para vida inteira.

Talvez a infância de muitos não seja maravilhosa, mas quem disse que não podemos consertar isso? Que os sonhos de infância não podem ser realizados? Desde se tornar um astronauta até possuir um simples coelhinho de brinquedo?

Tereza realizou esse sonho, mas ao invés de deixar o Coelho Elegante largado numa estante como um velho retrato para se lembrar do passado, presenteou a filha com o brinquedo dos seus sonhos. Seria gratificante vê-la crescer ao lado daquele coelhinho, como se o avô dela também estivesse presente entre eles.

Tudo isso graças a Astolfo, que fez uma boa ação. Tudo isso graças a filha do homem que preferiu um aparelho eletrônico insignificativo. Tudo isso graças ao mendigo que não se interessou pelo brinquedo. Tudo isso graças a Ana Lúcia que também tinha o sonho de obter o coelhinho, mas conseguir superar. Tudo isso graças a Lorena, cujo coelhinho já havia cumprido sua missão com ela.

Agora era a vez de Manoela crescer e criar muitas lembranças da infância com o Coelho Elegante.

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